.png)
Galeria Artigas, Pouso Alegre, MG
Julho/2025 a Setembro/2025
Abrir as janelas, tirar os sapatos para deitar os pés no piso de caquinhos coloridos do ateliê, fazer café (mas não beber), esperar em silêncio a convocação por parte das palavras, mapear capelas pelas andanças, sentir tudo em presença do começo ao fim dos processos. A artista Laura Conti manuseia as palavras com reverência, mas também borda, pinta, carimba e repete. Repete esse ritual incansavelmente como uma reza que se reinicia em espiral até a abertura de A Palavra Muda, sua segunda exposição individual em Pouso Alegre.
Tudo começou com uma adaptação intencional do cosmograma bakongo para dar contorno às ideias que a artista, aos poucos, vai tirando do papel e trazendo para a vida. Branco, vermelho, dourado e todos os tons de azul. A escolha da paleta de cores seria uma espécie de guia para a experimentação fluir pelos materiais diversos, mas também por memórias e símbolos que a acompanham. Algumas ideias vão para não mais voltar, outras alinham-se às repetições e vão formando uma espécie de coreografia que vai se estabelecendo na espuma dos dias.
Leda Maria Martins nos ensina que “Numa das línguas Banto do Congo, o kicongo, o mesmo verbo, tanga, designa os atos de escrever e de dançar, de cuja raiz deriva-se, ainda, o substantivo ntangu, uma das designações do tempo, uma correlação plurissignificativa. Aqui, numa coreografia de retornos, dançar é inscrever no tempo e como tempo as temporalidades curvilíneas. A performance ritual é, pois, simultaneamente, um riscado, um traço, um retrós, um tempo recorrente e um ato de inscrição, uma afrografia.”
Os gestos de Laura desenham-se no ar em quatro tempos, quatro cores, quatro pontos em cruz, encruzilhada. Suas criações em palavra, imagem e mergulho profundo ramificam-se em repetições que nos tocam em lugares bastante particulares. Palavra é corpo em movimento, mas a palavra muda. Muda como mudança, muda como deslocamento, muda como renovação, muda como ato, muda como substituição, muda como voz da adolescência ou até mesmo voz em ausência, muda como conjunto de roupas, muda como o que vem logo após o brotar da semente. Muda e muda.
Na série Dar ao couro nome de pele, as palavras recebem uma dimensão de encantamento quando bordadas pelas mãos da artista em couros de atabaques tocados na Escola de Tambores Coração da Mata e Maracatu Nação Semente Dourada. Nesta superfície sagrada, a artista expande o jogo semântico proposto no título da exposição, que acontece pela escolha das palavras e de suas rasuras e bifurcações: invisível coexistindo com o impossível, politizar é sobre polinizar, carinhos e caminhos são coisas que queremos abertos, dentre outras.
Já em Sussuram-me artista, chama atenção o diálogo de afirmação, que não apenas repete as palavras carimbadas, mas inventa uma conversa interna, na qual reitera com todas as letras, pontos e entonações: artista? Sim, artista. Não há dúvida na apropriação do termo e incorporação deste fazer. Se Laura um dia acreditou na fragilidade de tal autodenominação, pode agora respirar fundo e contemplar seu coerente corpo de obra, de modo que não há espaço algum para qualquer fresta de dúvida. A palavra muda, a artista constitui-se.
No que se refere à obra Ela me pede, lembra, Laura vale-se do tempo para nele voltar e relembrar os jardins da infância. Durante as aulas de balé, momento em que teve seu primeiro contato com a dança, bem como quando aprendeu a repetir e a suavizar os movimentos com pequenos lenços. Aqui, roubo duas de suas falas: “toda primeira vez é uma repetição” e “repetir demora”. Mas demora só enquanto dura o respiro de uma vida inteira.
Também há que se mencionar Quem reza, acha com suas capelas de cultuar o vazio, nas quais é possível ver o reflexo de si entre letras no espaço interior; as telas O chão de lá, que trazem o piso do ateliê para as paredes da galeria, propondo uma relação entre momentos do processo e entre lugares importantes para o percurso da artista e, por fim, os retalhos feitos a muitas mãos, resultado de encontros com olhares curiosos e convites aceitos para experimentar as palavras que a artista trabalha em ateliê, a princípio proposto pelo viés da repetição, mas rapidamente desviado para o que no outro insiste em vazar.
De forma geral, as obras de Laura Conti nos emocionam com a ambivalência e o encantamento das palavras e dos gestos de criação, tendo em vista que na arte pode-se muito, mas este muito sempre muda. Foram seis meses de escuta, trocas e de um pensar junto singular para desordenar a linguagem a ponto de ver a palavra feito pêndulo, como parte de um sistema que a permite transitar entre céu e terra, responder a movimentos internos e externos, assentar as intenções da artista e abrir espaço fértil para o porvir.
Texto de Thaís Bambozzi
Ficha Técnica
Direção Artística e Curadoria - Thaís Bambozzi
Expografia e Produção - Bruno Veiga
Pesca Poética - Maria Rocha
Consultoria de Acessibilidade - Johnny César dos Santos
Fotografia - Pollyana Guedes
Design de Mídias Sociais - Thabata Ferraz
Assistência de Ateliê - Claudia Gerdalda Emidio
Pouso Alegre
2025
.png)















